Joaquim Luiz Gomes: “Conflito entre o Trabalho e a Família”

“Na sociedade pós-industrial em que vivemos, são cada vez menos aqueles que têm fronteiras bem definidas entre o trabalho e o resto das suas vidas. Afinal de contas, o relógio de ponto e a semana de quarenta horas servem para estabelecer claramente essa fronteira ao longo do ano. Mas aos chamados “knowledge workers”, se por um lado se lhes atribui autonomia na gestão do seu tempo, por outro exige-se-lhes dedicação total, o que não raro implica semanas de sessenta horas e mais, inúmeros compromissos sócio-laborais, viagens prolongadas, trabalhos de casa, enfim, fronteiras indefinidas entre o trabalho e a família. Nas férias, as ditas fronteiras, restabelecem-se com maior nitidez. Talvez seja por isso que, por um lado, se inventaram as férias repartidas e, por outro lado, as férias estão constantemente a ser interrompidas.

(…)

O conflito entre o trabalho e a família origina custos sociais inquantificáveis, em termos de stress, puro cansaço, divórcios e falta de acompanhamento de dependentes. Há quem atribua as responsabilidades da resolução do conflito aos indivíduos e quem ponha o ónus no sistema. Os primeiros alegam que a solução está em gerirmos melhor o nosso tempo, para sairmos mais cedo do trabalho, ou em adaptarmos soluções de trabalho flexível. Os segundos sustentam que o problema não tem solução porque as empresas se sofisticaram muito a extrair o “surplus value” de que falava Marx.

(…)

As soluções de trabalho flexível, desde o part-time até ao horário flexível e ao local de trabalho flexível passando pela partilha de emprego (“job sharing”), muito raramente as tenho visto implementadas por cá. Mesmo nas latitudes onde têm muito mais expressão do que em Portugal, criou-se um neologismo para designar a carreira dos que optaram por estas soluções, “mommy track” – ou pista das mães. Logo, assume-se que quem adopta estas soluções deixa de poder aspirar aos ligares cimeiros da empresa e, ao tentar resolver o conflito trabalho/família desta forma, abdica voluntária ou involuntariamente da plena realização profissional. Enquanto se descrimina quem adopta formas de trabalho flexível, não podemos dizer que se trata de uma boa solução para o conflito entre o trabalho e a família.

(…)

Essencialmente, tentaram desmontar o pressuposto de que, num mundo global em que a rapidez é um facor crítico de sucesso, quanto mais os colaboradores trabalharem, melhor é o desempenho da empresa. No longo prazo, porque o cansaço e o stress originam rotação indesejável de pessoal.

No curto prazo e em sectores que exigem interaciçro entre trabalhadores criativos, o círculo vicioso de heróis individuais, interrupções constantes e mentalidades de crise, alimentado por um regime de incentivos excessivamente individualista, reduz muito a eficácia do colectivo. Propõem, portanto, uma gestão do tempo focada no colectivo, à La Mourinho, e uma partilha dos ganhos entre empresa e colaboradores.

(…)

Uma das formas de resolver a nível individual o conflito entre o trabalho e a família, sejam quais forem as circunstâncias, é optar decididamente pela família e aceitar os custos em termos de carreira que tal possa acarretar. Afinal, se o trabalho fosse assim tão bom, não nos pagavam.”

Fonte: Revista Atlântico, Agosto de 2006.

Este excelente e contundente artigo coloca precisamente o dedo na ferida: cada vez mais, um número crescente de nós, mas sobretudo aqueles que estão ligados às TI (“Tecnologias de Informação”) vêm mais e mais da sua vida pessoal invadida pelo Trabalho. Desde o terminal Blackberry que nos envia directamente para o “Telemóvel” as mensagens de Exchange do Correio da Empresa, e nos “força” a responder às mesmas quer sejam 23 horas ou 7 da manhã, e que somos forçados – directa ou indirectamente – a carregar connosco durante as férias, até aos telemóveis “pagos” pela Empresa a troco da dúbia vantagem de “estarmos sempre contactáveis”, as empresas encontraram formas de invadir a vida pessoal de muitos dos seus trabalhadores.

Em nome da sacrossanta maximização dos Lucros através da recolha do maior rendimento possível – a curto prazo porque a longo estaremos todos mortos – não se hesita em levar as pessoas até ao limite das suas e mesmo para além dele, desde que um dado projecto ou “cliente” sejam satisfeitos. Mas depois deste ou deste outro… Existe sempre mais um à espera, num ciclo interminável que só cessa, quando o trabalhador encontra um local de trabalho menos esmagador ou… Entra em colapso por via do alcóol, da droga ou do puro e simples… Desespero.

O problema está sem dúvida do lado da Empresa (aqui não partilho das hesitações de Joaquim Gomes), que é forçada pelos accionistas e pela gestão de topo a lucros sempre crescentes e que entra em crise não quando estes cessam, mas quando estes param de crescer. Com efeito, as gestões “modernas” favorecem excessivamente o curto prazo, desprezando o médio e o longo. Assim, não hesitam em “estourar” os seus melhores recursos humanos, desde que isso maximize os lucros no curto prazo. Estes “recursos humanos” (pessoas?) sacrificam assim as suas vidas, famílias, esposas e filhos, rodeiam-se de infelicidade e solidão em troca de benefícios que por vezes não passam de uma “segurança no emprego” fátua e sujeita às flutuações do Mercado…

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Categories: A Escrita Cónia, Economia, Sociedade, Sociedade Portuguesa, Websites, Wikipedia | 1 Comentário

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One thought on “Joaquim Luiz Gomes: “Conflito entre o Trabalho e a Família”

  1. Anónimo

    ç~ç

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