Quando os colonos portugueses se revoltam contra o ocupante holandês, coadjuvados por escravos negros e índios cristianizados, Vieira estava na Holanda, procurando negociar a paz desta com Portugal restaurado, quando recebe as notícias da revolta. A sua primeira reacção é escrever para o rei e queixar-se dos “valentões de Portugal”, que não satisfeitos de estarem já metidos com a maior potencia da época, Espanha, agora queriam também bater-se contra a Holanda, com quem ele procurava tão esforçadamente fazer a paz, de forma a garantir a vitória contra a primeira: “Em todo o passado Castela e Portugal não puderam prevalecer assim no mar como na terra contra a Holanda; e como poderá agora Portugal, só, permanecer e conservar-se contra a Holanda e contra Castela?” (Cartas). Posteriormente, haveria de ser menos crítico dos revoltosos, já que conhecera de perto e pessoalmente as agruras da “guerra holandesa” e haveria de ora defender revoltosos, ora aqueles que defendiam a paz com a Holanda. Alguns, em Portugal, e em particular na corte de Dom João IV, defendiam que a paz com a Holanda devia ser assegurada a todo o custo sacrificando inclusivamente os revoltosos que no Brasil no Pernambuco se batiam contra os holandeses e com eles, abandonando qualquer reclamação ao Pernambuco. Outros, menos influentes em Portugal, mas crescendo em número entre o Povo e a Burguesia, e sobretudo entre os colonos brasileiros acreditavam que era preciso enviar reforços para apoiar a revolta e promover a final expulsão dos holandeses do Brasil.
Menos hesitante estivera o rei, que logo que recebera novas da revolta mandara carta ordenando que a coluna que entrara no Pernambuco vinda dos territórios portugueses e que a pedido do governo local e enviada para ajudar a Holanda a suprimir a revolta e que se virara muito compreensivelmente a seu favor voltasse à Baía. A coluna militar violara as suas ordens absurdas e maquiavélicamente calculistas emanadas a partir de Lisboa e batíasse agora com os revoltosos e contra a Holanda no interior do Pernambuco. Já então o Brasil, pela composição das suas forças e pelo espírito de autonomia e de liberdade das suas gentes, começava a agir de forma autónoma e independente, animado pela distância da metrópole e do relativo desinteresse a que esta vota a sua distante colónia… Na revolta contra os europeus do norte estavam todos aqueles que os portugueses tinham trazido e encontrado na terra brasílica: aos portugueses, colonos e militares vindos da metrópole, juntavam-se e batiam-se lado a lado os índios comandados por Filipe Camarão, um índio tupi e os negros do liberto Henrique Dias. A esta congregação de gentes e raças, unidas pelo espírito da liberdade brasílica contra o opressor estrangeiro se juntava o coração de Vieira, criado desde os sete anos na Baía, mas se separava a inteligência do Jesuíta, mais prudente e avisadamente receosa da divisão dos escassos meios entre duas guerras contra duas das maiores potencias militares da época: Espanha e Holanda.
















Caro,
Permita-me fazer uma correcção ao seu texto. Há documentação que prova que a decisão de D. João IV não passou de um embuste para evitar uma guerra aberta contra a Holanda, isolando o conflicto num contexto “colonos rebeldes x Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. Os revoltosos foram ajudados com recursos de forma discreta e sabiam que agiriam “contra” as ordens de Lisboa. Já fomos um povo liderado por gente inteligente. Há também um outro facto interessante nessa questão. O Pe. Vieira era muito amigo de Manoel Dias Soeiro, mais conhecido por Menasseh Ben Israel. O papel dele na ascenção à potência da Inglaterra de Cromwell e na transferência de vultosos capitais marranos de Amsterdão para a ilha, assim como na primeira guerra anglo-holandesa, está por estudar. E não podemos esquecer que a Holanda reconheceu a perda do nordeste brasileiro neste contexto.
Deviamos aprender com os antigos…
ou seja, ocultamente, Dom João IV, estaria a apoiar a “guerra secreta” com a Holanda, apenas no Brasil?
Infelizmente, isso colide com a opinião que fui formando de Dom João e que o dá como um rei fraco, hesitante, sem plano de futuro para Portugal, felizmente rodeado por alguns dos melhores homens do seu tempo, como Vieira…
E é claro que devíamos aprender com os antigos… a amnésia histórica explica aliás boa parte das nossas dificuldades presentes.
p.ex. quando o psd critica as “grandes obras públicas: aeroporto e tgv” a maioria dos portugueses esquecem-se que são obras forjadas precisamente em governos psd…