Um português chamado António Vieira: O projecto de fuga para o Brasil e da independência do Brasil com… Dom João IV e o papel de António Vieira

Um dos episódios menos conhecidos da História portuguesa, envolve Vieira directamente, ou como criador do plano, ou pelo menos, como seu apoiante directo e explícito. Trata-se do projecto urdido por Dom João IV e no mesmo momento em que as negociações com França a propósito de uma aliança que sustentasse Portugal na sua luta desigual contra Espanha se goravam, altura em que o monarca português levanta a possibilidade de antecipar duzentos anos a fuga de Dom João VI para o Brasil de 1807.

Em meados do século XVII, o Brasil não é considerado como uma colónia como tantas outras que Portugal ainda mantinha um pouco por todo o mundo, mas como o derradeiro refúgio da portugalidade, o único local plausível para manter a monarquia e nela, alguma forma derradeira de independência perante as ameaças de invasão: sob Dom João VI, as divisões napoleónicas, e sob Dom João IV, dos tércios espanhóis.

O plano de Dom João IV parecia ser ainda mais ambicioso que o de Dom José, já que passava pela transformação da colónia brasileira num reino completamente autónomo, regido pelo monarca, enquanto que Portugal, deixado para trás e exposto à ameaça que o rei tinha por impossível de debelar se separava e ficava sob a regência do seu filho, Dom Teodósio que o rei procurava casar com uma princesa francesa como forma de lhe assegurar algumas condições de manter o reino independente perante Espanha.

O projecto foi levado a conselho junto dos mais próximos conselheiros do rei, entre os quais António Vieira, que tinha acabado de regressar dos Países Baixos e que juntava as suas preocupações às do Rei já que não conseguira ali assegurar uma paz com a República holandesa. Esta coincidência, e a ousadia costumeira das ideias de Vieira (não era ainda mais arrojado procurar abolir a designação de “Cristão-Novos”?) fazem crer que o projecto pode ter germinado na mente do jesuíta… Não era ele um “brasílico” de coração e formação? Não vinha Vieira desanimado da possibilidade de firmar a paz com a Holanda e receava acima de tudo uma coligação invencível entre os Países Baixos, atacando Portugal nas colónias e Espanha, invadindo as fronteiras raianas?

Tendo recebido do rei, o encargo de levar adiante o projecto, Vieira embarca para Paris e é recebido pelo embaixador português em Paris, Francisco de Sousa Coutinho, que acolhe a proposta com grande desconfiança e imensas reservas. Mas França não parecia muito inclinada a aceitar o projecto e hesitava quanto a enviar para Portugal o Duque de Orleães e propunha em seu lugar Luís de Condé, apenas numa manobra dilatória para atrasar o andamento do plano e descrente da capacidade do reino português – separado do Brasil – de resistir sozinho à potencia castelhana.

Embora alguns, como Oliveira Martins, encontrassem em Vieira o verdadeiro arquitecto deste plano, e nele também a mão da Companhia de Jesus que pretenderia desta forma constituir aquilo que na sua “História de Portugal” chama de “Quinto Império de Deus e dos Jesuítas” no Brasil onde Dom João IV seria a cabeça formal de um “Império Jesuítico nas Américas” que no século XVII alguns críticos quiseram encontrar no Paraguai. Nada indica , contudo, que houvesse tal intenção jesuítica ou que esta fosse a motivação secreta oculta sob as extensas manobras do Padre António Vieira neste sentido. De qualquer forma, o projecto de separação do Brasil de Portugal e da formação de dois reinos autónomos haveria de frustrar-se não só devido à oposição quase unânime dos conselheiros de Dom João IV, mas sobretudo pelas hesitações francesas em o apoiar, e, em primeiro lugar devido à inversão do andamento da guerra no Brasil onde os colonos que mantinham uma revolta contra os invasores holandeses começavam a ganhar ascendente sobre estes e colocavam agora em sério risco a aplicação prática deste arrojado plano.

Em suma, se não houve divisão entre Portugal e Brasil e se o segundo não logrou tornar-se o primeiro país colonial independente do mundo, tal deveu-se sobretudo à vontade dos seus autóctones e à daqueles que vindos de Portugal reconheciam nessa sua nova pátria virtudes e potencial bastante para que merecesse o estabelecimento e o mantimento de uma guerra que apesar de aparentemente perdida à partida, no final, seria ganha, saindo derrotado o invasor holandês e, com ele… Os planos daqueles que como Vieira se batiam pela separação dos dois reinos.

Publicado também em Nova Águia

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Uma Resposta a Um português chamado António Vieira: O projecto de fuga para o Brasil e da independência do Brasil com… Dom João IV e o papel de António Vieira

  1. Revoltado diz:

    Caro Clavis,

    Acho que uma breve, ou longa, exposição do que foram as batalhas de Guararapes faria muito bem aos seus leitores. É uma pena que este episódio nõ seja amplamente divulgado nas escolas tanto do Brasil como de Portugal.
    É incrivel ver as semelhanças entre as ameaças da altura e as de hoje. Uma companhia quotada em bolsa com direito e possuir um exército privado lança uma expedição, apoiada por um governo corrompido pelo dinheiro, a um território com pouca capacidade de defesa, e só a tenacidade e inteligência do seu povo impede o sucesso dessa empresa.
    Pense nas corporações modernas e na Blackwater. Há pouco tempo um amigo me enviou o link de um vídeo interesante sobre a primeira batalha de Guararapes. Acho que vale a pena dar uma olhada;

    Tivessemos uma Holiwood lusófona….
    Um abraço do Revoltado.

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