Um português chamado António Vieira: Os “imperadores universais” de António Vieira, após… Dom João IV

A morte de Dom João IV, de quem Vieira esperava o cumprimento de tão altos feitos, haveria de gerar no espírito do jesuíta uma profunda crise interior. Numa primeira fase, Vieira, completamente convicto da veracidade e correcção das profecias de Bandarra e da sua personalização em Dom João IV passa a acreditar e a exprimir a sua plena convicção na ressurreição do monarca. Mas com o tempo, e na falta do esperado regresso dos mortos do monarca defunto, Vieira acaba por evoluir nesse caminho e por passar a defender em 1664: “Por cá não há coisa digna de relação mais que haver-se hoje dado princípio às mesas na sala dos nossos estudos, onde o mestre, que é o P. Francisco Guedes, tomou por problema dos futuros contingentes se havia de vir El-Rey D. Sebastião. E depois de o disputar com aplauso por uma e outra parte, resolveu que o verdadeiro Encoberto profetizado é El-Rey que Deus guarde: D. Affonso. Por sinal que, para eu crer e confessar assim, não foi necessário nenhum dos argumentos que ouvi, porque, depois que observei as felicidades em que assiste o céu a todas as suas acções, estou inteiramente persuadido a isso”. [Carta a Dom Rodrigo de Meneses de 3 de Março de 1664, citada em p. 133]

Mas Vieira não se fica por aqui… Depois de Dom Afonso VI, e como este também não se revelar ser o esperado “imperador universal”, António Vieira elege Dom Pedro II, em 1684, como aquele a que está destinada a “destruição total do Turco está reservada a um rei português e que todas as probabilidades apontam para Dom Pedro II”. Mas passados apenas quatro anos, em 1688, é agora o primogénito de Dom Pedro II esse prometido monarca: “Digo que este Príncipe fatal, tantos séculos antes profetizado, e em nossos dias nascido, não só há de ser Rey, senão Emperador”. Não cessa aqui a lista de “quintos imperadores” de Vieira… Com efeito, com o súbito falecimento do primogénito, é ao seu irmão que compete o trono ficando um “com a posse da púrpura no Céu, o outro com o ceptro na Terra.” Este “futuro imperador” seria… Dom João V, desta feita.

Todas estas hesitações e mudanças de percurso, vistas à perspectiva de trezentos anos lançam dúvidas sobre a personalidade de Vieira. Seriam provenientes de um excessivo prazer pela proximidade do Poder e dos seus favores um defeito que os seus inimigos julgavam reconhecer na personalidade do jesuíta? Vieira era um ser humano, e consequentemente um indivíduo não isento das fragilidades típicas dos mesmos e esse factor não deve ser descartado com leveza. É também possível que o jesuíta se tivesse embriagado pelo canto de sereia dos seus próprios discursos e – enredado dentro da sua própria teia discursiva – acabasse por uma questão de consistência interna do seu próprio pensamento e de refúgio de racionalidade pessoal em acreditar realmente que a figura profetizada do “futuro imperador” se transferia assim de príncipe em príncipe, sucessivamente. Além da tese panegírica dos seus adversários e do “cerco mental” imposto pelo seu próprio universo verbal, há pelo menos mais duas explicações para estas oscilações… Vieira era um grande e fervoroso cristão. Recordemo-nos de que no Brasil, enquanto jovem, fugira de casa dos seus pais para o seminário jesuíta e que durante a sua vida sempre colocou a sua actividade missionária em primeiro lugar, contra todos os poderes e adversidades. Seria assim possível que estas oscilações fossem justificadas por uma necessidade de manter elevada a influência jesuíta na corte portuguesa e, consequentemente, do catolicismo nesta? É uma tese provável, especialmente se fôr conjugada com a sincera convicção de que Bandarra e os profetas biblícos que citava de memória antecipavam correctamente para Portugal um “quinto imperador” e um “quinto império” e de que se António Vieira, humano e falível se enganara com Dom João IV e depois com a sua miraculosa ressurreição, com Dom Afonso VI, Pedro II e, por fim, com Dom João V. Assim, Vieira não oscilaria de “futuro imperador” em “futuro imperador”, oscilaria sim a sua interpretação quando a uma identificação da sua personalidade. Convicto da sua imperfeição, mas igualmente certo da certeza das profecias Vieira buscaria esse Imperador de Príncipe em Príncipe, sempre na absoluta certeza da sua existência futura.

Sobre Clavis Prophetarum

Interesses: Ficção Científica História Romance Histórico Informática Paleolínguistica Escrita Cónia Política Nacional e Internacional (mais demasiadas coisas, tendo todas em comum o escasso conhecimento de cada) Filmes Favoritos: Dune Alien 2 Conan Solaris (Tarkowski) Senhor dos Anéis Fahrenheit 9/11 o Pianista Matrix K19 Minority Report As Asas do Desejo Magnolia Beleza Americana Música Favorita: Dead Can Dance Rammstein Sting Enya David Sylvian Vangelis Gabriel o Pensador Jocelyn Pook Livros Favoritos: Dune (série) Senhor dos Anéis Neuromante Pátria O Pêndulo de Foucault O Erro de Descartes Fundação (série) Leão o Africano O Quarteto de Alexandria Séries de Televisão Favoritas: Lost Space 1999 Black Adder Mr. Bean Conan, o Rapaz do Futuro Lexx Monty Pyton Seinfeld Politicamente: Quintano: seguindo de perto o pensamento político, pedagógico de Agostinho da Silva Filosoficamente: Caminhando pelas bandas do "Utilitarismo" de John Stuart Mill e, sobretudo, da sua interpretação moderna de Peter Singer ("A Ética Prática") Economicamente: Regresso aos modelos regionais e municipalistas da Idade Média portuguesa actualizados segundo a aplicação prática do pensamento de E. F. Schumacher ("Small is Beautiful") Religiosamente: Budista, segundo a Escola Mahayana Ning Mapa Labutando em: Administração de Sistemas Na tradução da Escrita Sudlusitânica (Cónia) No MIL: Movimento Internacional Lusófono (www.movimentolusofono.org) Neste blogue…
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