Daily Archives: 2009/03/07

Réplica a Casimiro Ceivães sobre o artigo “Surgem nos EUA os primeiros sinais (SIC) de retoma…”

No artigo publicado no blog da revista Nova Águia e intitulado “Surgem nos EUA os primeiros sinais (SIC) de retoma…” tive o prazer de receber o comentário de Casimiro Ceivães. Pela sua extensão e profundidade, merece uma resposta fora da caixa de comentários, que aqui farei.

”  – Não há quaisquer sinais de “retoma” nos EUA, obviamente. Obama faz a sua propaganda, como lhe compete.”

-> De facto, existem. Muito ténues e incertos, podendo reverter a qualquer momento. Recordemo-nos que as taxas de juro do FED estão praticamente a 0%, ou seja, muito abaixo da inflação. Simultaneamente, o mercado interbancário está novamente a funcionar e não completamente congelado como estava em finais de 2008 e os diversos “pacotes de estimulo” que os governos de todo o mundo estão a realizar gradual e lentamente os seus efeitos nas economias… O problema é que tanto dinheiro barato, pode criar nova bolha, que daqui a 10-15 anos estoure de novo… talvez até com consequências mais graves do que a bolha que hoje explodiu e que foram preenchida em 2000, após o colapso das “Dot Com” e da consequente baixa de juros decidida por Alan Greenspan.

”    – Há um problema com o “local”. Há 300 anos, eu resolvia o meu problema de transportes com o ferreiro que vivia na mesma aldeia e uma mula que ele pudesse ferrar. Há cem anos, precisava de um fabricante de carruagens que já só se encontrava nas cidades. Há 75, ainda tinha em França, na Alemanha e na Inglaterra umas dúzias de fabricantes de automóveis; mas que já precisavam do petróleo da Pérsia. Voltamos a qual dos níveis? É que a ‘economia nacional’ do séc. XIX é já o resultado da destruição das particularidades locais, leia-se pequenas economias de base puramente agrícola auto-sustentadas (e comércio tipo ‘feira local’). A ‘globalização’ não começou com Reagan, mas com as Cruzadas (ou melhor, causou já as Cruzadas).”

-> A todos e a nenhum, simultaneamente. É impossível manter os atuais padrões de consumo ou emulá-los na maioria da população do globo, como está agora a acontecer na China e na Índia. Simplesmente, não temos mais do que uma “Terra” e um “Clima”. Se cada chinês tiver os mesmos padrões de consumo de alemão ou de um norte-americano, as matérias-primas, cedo se esgotarão, não sem antes ascenderem a custos astronómicos, causando antes uma crise global de consequências inimagináveis. Acredito que é possível viver sem consumir exageradamente. Reduzir o consumo – em desperdício – de alimentos e reduzindo em 1/3 o consumo de alimentos no mundo desenvolvido (essa é a percentagem que um recente estudo britânico estimava ser deixada por consumir num lar médio). Reduzir os padrões de consumo de gadgets tecnológicos que somos induzidos a consumir por ferozes e hipnóticas campanhas de marketing. Assim, seria possível depender da maioria do consumo de alimentos e de bens primários de produção local, complementando-a sempre com importações regionais e até internacionais, para sectores que exijam um alto grau de especialização. Não se trata aqui de “proibir” as importações e de instaurar uma rede de “Cidade-Estado” independentes, trata-se de refocar do Global, para o Local e da Multinacional para a Empresa Local.

”    – Precisamente segundo a ‘teoria económica liberal’, os bancos teriam que falir – não, nunca, ser ‘salvos’ pelo ‘bail-out’ ou pela formação de ‘bancos tóxicos’ como parece ser a decisão/orientação política dos governos americano e europeu.”

- o neoliberalismo está hoje tão arrumado como o comunismo. As economias desreguladas provaram ser tão ineficientes na gestão da economia como as economias estatizadas e planificada do Leste.  A falência dos bancos seria perigosa, porque seria um factor para a eclosão de um efeito cascata que se propagaria a toda economia, como aconteceu na crise de 1929. Por isso se têm injectado tantos biliões na Banca mundial… A solução encontra é que tem sido infeliz. Na maioria dos casos, os Estados estão a injectar capital na Banca sem contrapartidas e sem assumirem responsabilidades de gestão e controlo e com a estranha pré-condição de venderem as suas participações assim que fôr possível. Sobretudo, nada se fez para dividir estes bancos gigantescos, produto de décadas de fusões e aquisições e de os aproximar da economia real e das necessidades locais. Ou seja, os Bancos estão a ser salvos para os seus accionistas e gestores, em nome do Bem Comum e com o dinheiro dos impostos dos assalariados, como resposta de curto prazo para a Recessão, mas sem que se altere nada de fundamental naquela voracidade pelo lucro fácil e rápido que os levou a eles e nos arrastou a nós para a situação presente.

”    – Precisamente dada a predominância do “local”, há 300 anos não havia um ‘acordo ortográfico’ nem sequer uma ortografia ‘nacional’. Estarmos aqui a discutir a relevância global (mundial) da Lusofonia implica estarmos a aceitar pelo menos parte da Globalização. Em minha opinião, é como se a Eva quisesse mordiscar a parte não-pecaminosa da Maçã.”

- a Globalização não é um fenómeno essencialmente negativo. Tem sido contudo a forma neoliberal com que ela foi conduzida pelos dogmáticos do “mercado livre”, do “Estado mínimo” e da “desregulação dos mercados financeiros”. Não advogo um Proteccionismo absoluto nem um fechamento total dos Estados sobre si mesmos. Defendo um recentramento da Economia sobre o Local, contra a prioridade Global, imposta pela globalização neoliberal dos últimos anos. Portugal foi o primeiro país verdadeiramente “global” do mundo e é a essa visão universalista que temos que reencontrar se queremos realizar o destino português. A Lusofonia, a sua fundação e transformação num novo e inovador tipo de organização dos Estados e das Sociedades  é um conceito “Global”, já que extravasa dos limitados conceitos “nacionais” de Estado. É transnacional, porque a cultura lusófona é transversal a vários continentes e traz a semente de um novo tipo de Estado, focado nos interesses locais, profundamente descentralizado ao nível municipal e composto de milhões de células administrativas dispersas por todo o planeta de Timor a Recife, todas detendo o essencial do poder democrático e delegando nas estruturas centrais apenas o essencial do poder representativo internacional, competências de Defesa e a orientação estratégica da economia e da sociedade.

”    – É evidente o bom-senso do ‘deixemos de consumir compulsivamente’. Mas como passar para um nível de vida semelhante ao do das clássicas sociedades do Terceiro Mundo? Estamos realmente a propor voltar a ir buscar água com um cântaro à fonte? É que é precisamente disso que estamos a falar (enquanto houver água; é que se ficarmos só com as fontes não há água potável na Europa para uma população tão grande)”

- não temos que transitar para um nível de consumo de tanta frugalidade… As transições suaves são sempre mais preferíveis e desejáveis, mas só podem ser feitas enquanto ainda há recursos suficientes para as fazer, e se continuarmos a consumir nestes padrões não teremos muito mais tempo. Basta descermos até níveis de consumo mais normais, menos danosos para o ambiente e para o clima, semelhantes aos que existiam na Europa na década de cinquenta, cujos padrões de consumo de matérias-primas seriam hoje possíveis de suportar pela via da reciclagem e cujos consumos de energia poderiam facilmente ser hoje ser oferecidos por fontes renováveis.

”    Os grandes bancos mundiais não estão na situação em que estão por terem “emprestado demais”. Por exemplo, o único grande banco falido, o americano Lehman Brothers, pura e simplesmente não fazia empréstimos (nem a particulares nem a empresas).”

- não somente, mas também. A crise financeira começou lá em meados de 2007 precisamente porque os bancos norte-americanos começaram a emprestar sem critério no chamado padrão de risco elevado “subprime”. Depois, pegaram nessas dívidas difíceis de cobrar e empacotaram-nas em “fundos de investimentos” opacos e onde quase ninguém conhecia a sua verdadeira natureza. Alguns desses fundos eram da Lehman Brothers, e foi a constatação da sua  “toxicidade” que levou ao colapso desse banco de investimento.

”    Há, claro, um problema grave no crédito à habitação americano, mas que é local e que, tendo embora ajudado a despoletar a falência dos “casinos” (que apostaram sobre esses créditos), não levaria em condições normais à falência de nenhum mega-banco. Entre Março e Setembro do ano passado, acreditava-se que era essa a situação (em Março a falência do primeiro banco americano, que era pequeno para os standards deles, e em Setembro os três dias de pânico absoluto em que oito dos dez maiores bancos do mundo estiveram em risco de falência em cadeia, e de onde resultou a falência do Lehman Brothers e os empréstimos governamentais aos outros)”

O problema do predomínio exagerado do sector imobiliário não é apenas norte-americano, mas global. Basta ver a nossa vizinha Espanha que assentou tanto da sua falsa prosperidade das últimas décadas no crescimento desmesurado do sector imobiliário ao ponto de cada família espanhola ter 1,5 casas, a média mais alta do mundo… O pânico ainda não passou, estando esses rumores de falências dos mega-bancos novamente no tema do dia, tamanho foi o nível de especulação bolsista em que esses Bancos se envolveram e tamanha foi a cegueira neoliberal dos reguladores.

Categories: Economia, Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia | 4 Comentários

Sobre o “Triana” o satélite “inventado” por Al Gore e que Bush, por birra, mandou guardar num armazém


(“Triana” ou Deep Space Climate Observatory em http://aycu11.webshots.com)

Num armazém quase esquecido em Maryland, não muito longe de Washington esteve guardado até há muito pouco tempo e desde janeiro de 2006 um satélite que poderia clarificar definitivamente a existência ou não do fenómeno do Aquecimento Global. Não que a maioria da classe científica esteja ainda por convencer, claro, mas persiste um grupo de “climatologistas”, mais ou menos ligados a financiamentos diretos ou indiretos das companhias de Energia que juntamente com os neoliberais autistas do “Blasfémias” e este satélite – se tivesse sido lançado – poderia ter já esclarecido se existe ou não o tal fenómeno designado por “Aquecimento Global” induzido pela atividade humana.

De facto, nos últimos anos os “negacionistas” foram forçados a mudar o seu discurso. Se no começo da década de 90 e até cerca de 2007 se limitavam a negar o próprio “Aquecimento Global”, agora, esmagados pela evidência do degelo no Oceano Polar Árctico e dos glaciares do Pólo Sul, da Argentina e da Groenlândia, já reconhecem a sua existência, mas adoptam uma posição fatalista de que “nada podemos fazer”, porque o fenómeno é completamente “natural”  provocado apenas pela atividade do Sol. Mas nem todos, adoptaram esta posição… como se vê nos derradeiros defensores do negacionismo em Portugal, os neoliberais do “Blasfémias” que precisariam ainda talvez (e daí… se calhar nem com isso) dos resultados das observações do “Triana”, porque é assim que se chama este satélite encaixotado algures nos arredores de Washington. O nome é uma homenagem a “Rodrigo de Triana” o primeiro marinheiro de Colombo que viu a costa da América.

O satélite foi uma vítima paradoxal do sucesso mediático da campanha pró-Clima de Al Gore e tendo sido um projeto que acarinhou nos seus tempos de vice-presidente na Administração Clinton, a ascensão do ultra-cristão George Bush iria levar ao seu inevitável cancelamento por razões “orçamentais”. Curiosamente, ainda que não tenha sido (como chegou a apregoar o “inventor da Internet”: “During my service in the United States Congress, I took the initiative in creating the Internet.”), Gore, numa noite de insónias, em 1998, imaginou uma sonda que pudesse estar numa órbita muito longe da Terra (mais exatamente, a 1,6 milhões de quilómetros) medindo o calor que a Terra emite para o Espaço. Esta distância é essencial, porque a maioria dos satélites orbitam a órbitas mais ou menos baixas, que as impedem de percepcionar todo o globo terrestre, captando apenas pequenas secções do mesmo. Na altura, a ideia foi alvo da gozação dos congressistas republicanos que lhe chamaram “Gore´s screen saver”. O projeto custou aos EUA perto de 135 milhões de dólares e conseguiu sobreviver a todos os seus detractores tendo chegado a ser agendado para um lançamento em 1999, precisamente a missão STS-107 que ditaria o fim do vaivém “Columbia”, ou seja, ironicamente, salvando o satélite…

Finalmente, em novembro do ano passado, o satélite foi tirado do armazém e está agora a ser re-certificado pela NASA para receber uma modernização nos seus sensores e equipamentos de comunicações. Tudo indica agora que afinal sempre será lançado a bordo de um foguetão Delta 2 ou de um Falcon 9 da SpaceX… E o facto disto só ter acontecido quando Bush estava já de saída da Casa Branca é, certamente, uma mera coincidência… Pois.

Fontes:
http://www.nature.com/nature/journal/v450/n7171/full/450797a.html
http://www.politicalcortex.com/story/2007/8/29/172337/325
http://en.wikipedia.org/wiki/Triana_(satellite)

Categories: Ciência e Tecnologia, Ecologia, Política Internacional | Tags: , | 11 Comentários

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