António Nogueira Leite (www.sabado.pt)
“Durante 20 anos fizemos tudo ao contrário na ilusão de que já éramos ricos (fomo-nos sentindo ricos, vivendo sempre acima das nossas posses, todos os anos desde 1994): engordámos a Função Pública (a partir da súbita e extrema generosidade do ano de 1991), tornámos-nos um país de proprietários endividados (aceleradamente, após 1992), fomos criando um sistema de pensões insustentável e particularmente injusto para as gerações mais novas.”
> na década de 90 o afluxo generoso e sem controlo de financiamentos europeus, seguido (e acumulado) da adoção do euro em 2000 criou a falsa sensação de riqueza. Primeiro pela injeção de milhões de euros em fundos estruturais que cedo irromperam em cascata por toda a sociedade lusa. Anos depois era o Euro – com o crédito barato – que reforçava ainda mais essa ilusória sensação de riqueza. Quer pelos Fundos Europeus, quer pelo Euro, os portugueses habituaram-se a viver muito acima das suas posses. Não porque fossem estúpidos ou desleixados enquanto Povo (como sugerem os país do norte), mas porque este afluxo de capital barato não foi devidamente regulado por vários e sucessivos Governos e, sobretudo, por um Banco de Portugal laxista e incompetente.
“enchendo o país de infra-estruturas subutilizadas ou simplesmente inúteis, promovidas por políticos incompetentes para gáudio de populações embrutecidas e de empreiteiros gananciosos.”
> Em comparação com a maioria dos países mais desenvolvidos do continente europeu, Portugal tem uma rede viária extraordinariamente desenvolvida. Esta sobredesenvolvimento resultou da concessão de financiamentos europeus que beneficiaram diretamente influentes empresas de construção civil e os grandes partidos da partidocracia nacional que durante décadas beneficiaram direta ou indiretamente dos seus “abnegados” donativos e de ofertas de posições nos Conselhos de Administrações. Portugal, em consequência de uma malfadada estratégia de Tercialização da Economia (de que o atual Presidente da República foi o maior mentor) esvaziou-se de indústria, agricultura e pescas e encheu-se de Elefantes Brancos e Auto-estradas. Os responsáveis estão hoje à vista de todos, nos partidos e grandes empresas públicas e privadas. São eles os grandes responsáveis por este desvio doentio da nossa Economia para fora das atividades produtivas e da abertura desbragada de fronteiras a importações de todo o tipo e feitio.
“O país vive nas vésperas do embate final com o concreto, ou seja com a impossibilidade de financiamento externo (que já não é autónomo desde, pelo menos 2009, não o esqueçam) num momento de verdadeiro estupor coletivo.”
> Os espantosos indíces de consumo registados no Natal de 2010 refletem uma sociedade doente, em que ainda não se impôs a consciência coletiva de que vivemos hoje o fim de uma era. Durante décadas, a evaporacao de grande parte do nosso tecido produtivo foi mascarada pelo credito barato. Obviamente, tal louca espiral teria alguma vez que tocar no tecto. E bateu.
“Os portugueses na sua maioria, comportam-se como se tudo se mantivesse na mesma (com excepção da metade de milhão que constitui o primeiro contingente de baixas do regime) e vão lamuriando contra a maldade do Governo que lhes corta salários ou benesses mesmo quando convencidos que qualquer alternativa verdadeira lhes cortará salários e benesses”.
Com efeito, até agora o essencial desta crise tem recaído sobre o exército cada vez mais numeroso dos desempregados (a caminho dos 700 mil em 2012) ou dos jovens licenciados ou mestrados sem Emprego nem perspetivas de futuro fora da casa dos pais ou da emigração. Mas à medida que o desemprego toca mais e mais famílias a almofada de segurança que os país ainda davam aos seus filhos da geração “Nem-Nem” (Nem emprego, Nem estudam) vai-se esfumar à medida que as falências se forem acumulando e todos os empregados com mais de 40 anos sejam vassourados como pó para fora da vida ativa e sejam atirados para o crónico balde do Desemprego permanente. O cerco aperta-se: de um lado os jovens sem perspetivas de futuro. Do outro, os seus pais que perdem o Emprego sem perspetivas de o recuperar. De permeio, a função pública começa agora a sofrer também com os cortes salariais e os aumentos dos impostos. É toda uma sociedade que começa a pagar os desvairos das últimas décadas. De forma desigual, uns mais que outros… Mas todos caminham inexoravelmente para um abismo do desespero que cedo ou tarde levará a uma revolta popular e isto apesar de todas as tradições de pacatez e passividade dos portugueses.
Fonte:
António Nogueira Leite
Sol 23 de dezembro de 2010
















‘todos caminham inexoravelmente para um abismo do desespero que cedo ou tarde levará a uma revolta popular e isto apesar de todas as tradições de pacatez e passividade dos portugueses’
e tanto assim é que o mais cívico seria ensinar as cabeças mais novas a rebelarem-se
‘rebelar-se’, sim, por que o ‘rebelar-se’ sempre chegará, e tudo dependerá de saberem fazê-lo de forma construtiva e sem perdas desnecessárias