As duas vias para a solução da crise financeira portuguesa: Islândia e Argentina

Tumultos na Argentina em 2001 (http://www.verdant.net)

Tumultos na Argentina em 2001 (http://www.verdant.net)

A “solução” para a crise atual não pode passar por dez anos de restrições orçamentais severas para manter os Bancos que – de forma ávida e desbragada – nos emprestaram dinheiro. Com efeito, se o Lucro deve recompensar o Risco, então não se compreende porque é que têm que ser os Estados e o total da população a impedirem que os Bancos espanhóis (são eles os nossos maiores credores) percam dinheiro com os nossos empréstimos.

Portugal tem assim duas opções: Empréstimos draconianos e recessão durante dez anos ou Bancarrota. Parcial (Portugal em 1911) ou Total (Argentina em 2001).

A alternativa argentina (a bancarrota):

As Bancarrotas de Estados não são de alguma forma uma ocorrência rara na História. Em épocas recentes, a Rússia declarou-a em 2004, a Alemanha também o havia já feito em 1923 e 1945.

Quando um país declara bancarrota sacrifica durante anos qualquer regresso aos mercados financeiros uma vez que ao declarar que é incapaz de honrar os seus compromissos financeiros em juros ou amortizações de dívida, os mercados deixam de confiar (compreensivelmente) nele como recetor de novos empréstimos.

Uma das consequências mais comuns de uma Bancarrota estatal são elevados níveis de inflação, os quais serão, aliás, intensificados pela política cegamente monetarista do Banco Central Europeu. Se Portugal declarar bancarrota podemos contar com o mesmo fenómeno que se observou em 2001 na Argentina: uma deslocação massiva de “homens de negócios” com malas de viagem cheias de dólares formando filas nos bancos espanhóis e marroquinos. Foi isso que aconteceu em 2001, com os mais abastados argentinos que inundaram os bancos uruguaios com milhões de dólares e será isso que acontecerá também em Portugal caso o país declare bancarrota. Após este previsível êxodo de capitais, todas as contas bancárias serão previsivelmente congeladas pelo governo, como sucedeu em 2001 na Argentina, após o que dias depois serão reabertas com levantamentos limitados. Isto significa que os pequenos depositadores serão os mais afetados. Será de esperar quedas dos níveis de consumo da ordem dos 60%, e vagas de saques a lojas comerciais. Portugal está na sua maior crise financeira dos últimos cem anos. Em 2001, a Argentina também estava. Mas em 2001, a Argentina podia deixar flutuar a cotação do peso (antes esta tinha estado fixada à do dólar) e em resposta a esta crise foi isso que fez. Em consequência, muitas empresas – que tinham créditos da época em que o peso valia o mesmo que o dólar – abriram falência. O desemprego, que já era elevado, subiu acima dos 25%. A instabilidade política argentina nesta época foi tremenda, com cinco presidentes em apenas duas semanas até que o último, Kirchner declarou oficialmente que o país não conseguia pagar os 115 mil milhões de dólares que devia ao exterior. Curiosamente, um valor que é cinco vezes inferior ao português, com os seus impressionantes 507 mil milhões de euros (2009).

A alternativa islandesa:

As consequências de uma bancarrota podem assim – como se viu no exemplo argentino – ser terríveis. Importa assim observar a alternativa à “solução” argentina: a Islândia. A sua via não tem sido divulgada devidamente porque consistiu numa corajosa resistência ao complexo financeiro-político que hoje governa ademocraticamente a União Europeia. A opção islandesa não serviu os interesses dos bancos europeus, logo estes têm todo o interesse em que se não fale dela nem que esta possível via chegue aos ouvidos dos cidadãos.

Quando em 2007, a Islândia foi o primeiro país europeus a soçobrar perante a crise mundial, declarando bancarrota por causa da falência do seu maior banco muitos desconsideraram o impacto de tal crise alegando que se tratava apenas de um pequeno país com pouco mais de meio milhão de habitantes e que seria facilmente “socorrido” por um empréstimo do FMI. O problema foi que na Islândia a “ajuda” do FMI foi levada a referendo e… derrotada.

Qual será a melhor para Portugal? Ou melhor: qual será aquela que os nossos “amigos” europeus nos vão deixar seguir?… Nenhuma das duas, claro.

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Categories: Economia, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | Tags: , | 20 Comentários

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20 thoughts on “As duas vias para a solução da crise financeira portuguesa: Islândia e Argentina

  1. pedronunesnomundo@gmail.com

    esse é o panorama das soluções
    …mas e o panorama dos problemas?
    é que há ‘bancarrota’ e ‘bancarrota’

    a tipologia da solução não tem directamente a ver com as características intrínsecas do próprio tipo de buraco em que determinada Nação cai, não obstante o resultado final ser similar ?
    o facto de diferentes Nações irem ‘à falência’ por súbito colapso bancário ou crónica gestão financeira de décadas não pesa no momento da procura de uma solução ?

  2. paulo Alves

    quando Portugal declarar a bancarrota , a consequência será bem diferente daquelas que assistimos na Argentina em 2001 , e bem diferentes daquelas que Portugal viveu á cem anos atrás , estando hoje Portugal num espáço amplo de movimento livre ( a união Europeia ) , bastando simplesmente o cidadão usar o seu cartão de cidadão , acontecerá um exodo sem precedentes da nossa historia de quase cem porcento da sua população activa para outros paises europeus , portugal morrerá pois não terá gente para o habitar , ninguem no seu perfeito juizo quererá viver e trabalhar num pais falido !!!

    • Nao duvides que a “europa” nos fechara as fronteiras se tal exodo se verificar mesmo… Ou o que achas que os “senhores da Europa” estao a preparar com a revisao de Schengen?…

  3. Lusitan

    E depois há a possibilidade de não irmos à bancarrota e pagarmos o que devemos. Há aquela pequena possibilidade que nos tornarmos um país responsável e com alguma vergonha na cara e começarmos a trabalhar no sentido de reduzir as despesas do país. Existe a possibilidade de as pessoas começarem a trabalhar em vez de estar constantemente a fazer pausas pra fumar e tomar café. Há a possibilidade de ficarmos até um pouco mais tarde para terminar uma tarefa no trabalho em vez de sair à hora marcada porque ninguém nos paga horas extraordinárias. Há a possibilidade sermos um país mais disciplinado, mais atento à corrupção, menos propício a “ajudar amigos”. Mas essa é a opção mais dificil, porque implicaria termos de nos mudar a nós mesmos.

    Falam tanto na falta de solidariedade dos países do Norte, mas ninguém fala na falta de solidariedade da nossa parte no caso de simplesmente reestruturarmos a dívida. O que vai acontecer ao dinheiro que o resto do mundo nos anda a emprestar? Isso também terá consequências para os países que nos emprestaram dinheiro. De facto quando eu vejo a atitude deste fórum começo a perceber as reticências dos finlandeses e dos britânicos. Para quê emprestar dinheiro dos seus contribuintes se depois ficam com as mãos a abanar? Solidários, sim. Estúpidos, não!

    • Otus scops

      por muito que goste ou me desagrade o Lusitan coloca “o dedo na ferida”…
      bem escrito!

      agora só uma coisa, essa coisa dos portugueses pararem para tomar café, etc, é algo que eu queria esclarecer. poderá haver locais assim, que os há de certeza nomeadamente no sector público, mas no geral isso não é prática comum, bem pelo contrário. os portugueses são dos povos que trabalham mais horas em toda a OCDE.
      se não trabalham melhor a culpa é de quem gere e organiza…

      • Lusitan

        Eu só tive uma passagem numa empresa de grande dimensão no meu ainda curto historial de emprego. E estava na empresa meramente como consultor para a área da Saúde. Eu entrava às 9h e saía às 14h (era part-time no final do curso). Durante esse tempo em que eu fazia um intervalo de 20mins às 11h para tomar um café e um snack (que era trazido ao escritório por uma senhora), os meus colegas faziam no minimo 4 intervalos por todo o tipo de motivos. Desde ir pôr uma moedinnha no parquimetro, ir à casa-de-banho (juro que havia colegas que deviam ter diarreia todos os dias), fumar um cigarro que demorava 20mins. É óbvio que havia um défice de liderança na empresa, mas o trabalhador não pode deixar de assumir as suas responsabilidades!
        Em relação a esse estudo da OCDE ele falava das horas que trabalhavam no emprego e em casa, e todos sabemos como o tuga gosta muito de puxar a brasa à sua sardinha. Nunca devo ter visto tanto homem a aspirar a casa e a mudar as fraldas aos putos como nesse estudo!

      • Otus scops

        Lusitan

        eu podia dar outros exemplos do contrário, mas a frase “É óbvio que havia um défice de liderança na empresa, ” diz tudo e corrobora a minha profunda convicção de que os maiores culpados deste regabofe social são de quem tem a responsabilidade de “a culpa é de quem gere e organiza”…

    • paulo Alves

      Quando o senhor diz….. ” E depois há a possibilidade de não irmos à bancarrota e pagarmos o que devemos. Há aquela pequena possibilidade que nos tornarmos um país responsável e com alguma vergonha na cara e começarmos a trabalhar no sentido de reduzir as despesas do país. Existe a possibilidade de as pessoas começarem a trabalhar em vez de estar constantemente a fazer pausas pra fumar e tomar café. Há a possibilidade de ficarmos até um pouco mais tarde para terminar uma tarefa no trabalho em vez de sair à hora marcada porque ninguém nos paga horas extraordinárias. Há a possibilidade sermos um país mais disciplinado, mais atento à corrupção, menos propício a “ajudar amigos”. Mas essa é a opção mais dificil, porque implicaria termos de nos mudar a nós mesmos “… Fique sabendo que tal mudança jamais será possível , pois caso não tenha reparado Portugal é como o estado Indiano , onde existem várias castas , no caso particular Português existem duas castas dominantes , a casta dos ” mamões ” e a casta dos ” não-mamões ” sendo os primeiros uma casta composta por milhares de individuos que nada fazem , nada produzem e que tudo ganham , é fácil de os encontra nas autarquias , nos tribunais , nos sindicatos , nas juntas de freguesias , nos ministérios , nas empresas publicas , , na maçonaria , na politica , na caixa geral de aposentações entre outros orgãos do estado . A casta dos ” não-mamões ” são todos aqueles que trabalham muito , produzem imenso e nada recebem , tudo o que ganham é sugado pela casta dos ” mamões ” , poderá encontrá-los muito facilmente nas fabricas , na agricultura , nas pescas , no comercio , na industria , a casta dos ” não-mamões ” é a mais sacrificada e a mais explorada e é com esta que os ” mamões ” esperam poder sugar ainda mais o seu sangue para pagar as dividas ao exterior e poder simultaneamente as seus ” direitos adequiridos ” . A casta dos ” mamões ” têm muita força no pais , são eles que decidem , são eles que têm poder de se fazer ouvir , e como tal será esta mesma casta a mostrar uma resistência feroz as reformas necessárias para fazer o pais descolar de uma vez por todas do marasmo em que se encontra . Se este pais declarar bancarrota restará á casta dos ” não-mamões ” emigrar em massa , a emigração será vista como uma espécie de ” válvula de escape ” , pois se caso contrário , se por qualquer motivo , por qualquer truque politico , impedirem essa gente de emigrar e assim fugir á exploração de que andam a ser alvo á décadas sucessivas , então ai , temo que este pais um dia possa cair numa guerra civil !!!

      • Lusitan

        A cukpa da casta dos mamões ser a predominante é nossa! Em Portugal apenas 4% dos VOTANTES são filiados num partido, sendo que a maioria desses são mamões! Ora se nós (neste caso eu sou filiado num partido político mas abstenho-me de fazer trabalho político para não ser associado a esses MERDAS que engoliram os partidos do poder, por isso também sou responsável) abdicamos de contribuir para melhorar a vida política e desse modo o país, estamos a abandonar o país à sorte de marginais e incompetentes! Eu mesmo que quisesse candidatar-me a um lugar no partido a que pertenço nunca seria capaz de ganhar pq a maioria dos filiados do meu partido além de lá estarem por interesses próprios são muitas vezes dependentes de pessoas com cargos de influência dentro do próprio partido. Se mais ninguém com consciência e sem interesse entrar para o partido de certeza que nada muda!

        • Otus scops

          Lusitan

          só posso dizer duas coisas:
          – falaste a verdade
          – fá-lo sempre de forma simples e extremamente objectiva, excelente!

          “A culpa da casta dos mamões ser a predominante é nossa! Em Portugal apenas 4% dos VOTANTES são filiados num partido, sendo que a maioria desses são mamões!”
          mais palavras para quê???

          • Mas esse ‘e realmente o nosso problema: os partidos estao nas maos dos mamoes! E nos deixamos! Temos que os invadir e muda-los por dentro ou… Fundar os nossos proprios partidos.

        • Lusitan

          Clavis, se quiseres formar um partido cujo principio seja o de promover a justiça social ao mesmo tempo que se promove a ciência e tecnologia e o crescimento económico (que ao contrário do que os neoliberais apregoam podem ser conjugados num sistema democrático) podes contar com a minha dedicação e trabalho desinteressados. A questão da política externa é que se calhar é melhor deixarmos pra outra altura! :D

    • pois é meus amigos, para isso teriamos que acabar com as mordomias de todos os politicos, inclusivé presidentes da républica gestores de empresas publicas deputados, e sim por toda essa gente a trabalhar com honestidade.
      acabar com os cartões de crédito sem limite de despesas e mais por ai além, porque o granda fosso do nosso pais esta nos governantes que tivemos desde o 25 de abril até ao momento, sem qualquer tipo de exceção politica, acabar com viaturas do estado com motorista a tempo inteiro, e mais não digo porque tudo isto é do conhecimento publico.

      • De governar pelo exemplo e nao pela oratoria, sem suma! Mas para isso precisariamos tambem de uma populacao civicamente mais educada e participativa…

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