
Juliet Schor (bostonbookfest.org)
Um dos discursos mais recorrentes nos agentes políticos atuais é o de que para sair da crise temos que “trabalhar mais”. Por tal, assume-se geralmente que seja explicitamente “mais horas” e implicitamente (sobretudo) “mais horas extraordinárias não remuneradas”. Mas “trabalhar mais” nao é necessariamente um sinónimo de “trabalhar melhor”. Bem pelo contrário. No Fórum da PASC de 21 de setembro, o economista José Tavares exprimiu a sua estranheza perante a quantidade de horas extraordinárias não remuneradas que se praticam nas empresas portuguesas e o diferente que essa prática era no resto da Europa. Estranhou igualmente o laxismo e a ausência de fiscalização deste fenómeno por parte das autoridades…
Recentemente, a economista norte-americana Juliet Schor no yesmagazine.org publicou um texto em que defende que a redução das horas de trabalho podem ter benefícios muito palpáveis e concretos, mesmo no atual contexto económico.
A economista defende que “durante a Era Industrial, a redução da quantidade de horas foi pelo menos tão importante como contributo para o Emprego como o crescimento do mercado.” Contudo, desde 1990 que se observa um grande e poderoso impulso por parte dos agentes económicos para reverter o processo de redução das horas de trabalho… Nos Estados Unidos, em 2006, os norte-americanos trabalharam mais 180 horas por ano que em 1970. Mas contrariando este impulso, alguns americanos optaram deliberadamente por reduzirem as suas jornadas diárias de trabalho em troca de remunerações inferiores.
Os benefícios da redução do número de horas remuneradas e efetivas são múltiplos:
1. Se essa redução de horas de trabalho se efetivar pela adição de mais um dia de descanso semanal, haverá uma redução muito sensível dos custos ambientais, de CO2 e de combustíveis fósseis.
2. Vários estudos económicos apontam para que “quando as famílias despendem mais tempo ganhando dinheiro, compensam esse esforço consumindo mais nos tempos livres e recorrendo mais a alimentos processados, que têm um peso ambiental, energético e de emissões de CO2 maior que os alimentos preparados no lar.
3. A redução das horas remuneradas de trabalho propiciam ao recrutamento de novos funcionários nas empresas e, logo, à redução do desemprego, o grande flagelo do Ocidente desenvolvido.
4. Esta redução compele as organizações a reorganizarem os seus métodos de produção, por forma a otimizarem os seus processos de forma mais eficiente, reduzindo (pela redução da quantidade de horas de atividade) os seus custos de funcionamento.
5. A redução da jornada diária de trabalho vai aumentar o tempo de lazer e tempo livre, dinamizando todo este setor económico e entregando aos cidadãos tempo (que hoje as empresas sequestram) que podem depois investir em famílias mais estáveis e saudáveis e em atividades cívicas e associativas.
6. A redução – especialmente acima dos 45 anos – irá facilitar a transição para a reforma e reduzir os casos em que os trabalhadores se reformam em estado de exaustão física e mental e acabam por ter uma qualidade de vida baixa, plena de problemas de saúde e uma vida mais breve do que o necessário.
Este movimento para a redução das horas remuneradas só pode ser, contudo, realmente produtivo se as horas assim libertadas sejam investidas na melhoria da qualidade e de intensidade de vida dos cidadãos. As romarias às catedrais de consumo em que hoje se empenham tantas famílias aos fins-de-semana e que nada fazem para promover a qualidade da vida familiar podem ser substituídas assim (dada a maior abundância de tempo) por melhor qualidade de vida: o regresso à saudável arte da maçonaria, do artesanato, da leitura e da criação de bens e serviços culturais melhorará a qualidade de vida dos cidadãos e das suas famílias, resultando em famílias mais estruturadas e equilibradas, e logo, em menores níveis de delinquência infantil e juvenil.
Um estudo do “Center for the New American Dream” (newdream.org), citado por Juliet Schor revelou que 4 em 5 americanos que escolheram trabalhar menos horas admitem que se sentem hoje mais felizes do que antes. Outros estudos indicam que as longas jornadas de trabalho multiplicam os erros, reduzem a produtividade-hora e intensificam os problemas de saúde.
Fonte:
Fundação E. F. Schumacher
http://www.neweconomics.org
















“Mas “trabalhar mais” nao é necessariamente um sinónimo de “trabalhar melhor”.”
>Para mim o que vale é a qualidade do serviço que o trabalhador presta. Funcionário cansado e estressado não produz com qualidade. Tem aquele funcionário que faz um excelente serviço em 8h por dia, mas tem aquele que faria melhor em 6h, e ainda podia aproveitar o tempo livre para estudar mais, fazer novos cursos, se for formado numa universidade, se dedicar a pós-graduação. Se fizerem os funcionários trabalharem 12h por dia, os funcionários vão desanimar e começar a criar problemas no trabalho, vão querer fazer greves, vão querer enrolar o serviço e atrasar a conclusão, vai dar tretas atrás de tretas.
… Vai dar nessas tretas todas Odin e com toda a razão! O Odin sabe do que fala. Eles até podem estar a cumprir horas de trabalho e não fazerem nada porque é injusto. A isto chama-se regredir. Andar para trás e querer de novo a escravatura não dará bom resultado…
Esta medida ‘e a mais estupida que este governo ja propos… Curiosamente, tinha escrito este texto antes dela ter sido anunciada, sendo que as conclusoes saiem ainda mais reforcadas.
Como conciliar a vida familiar com a incerteza do capricho empresarial? Como vai ela aumentar a produtividade-hora do trabalho? Quanto emprego vai ela suprimir?
Este Alvaro pode ser um grande academico, mas esta a sair um ministro muito mediocre…
Muito medíocre? O Clavis é muito benevolente.
Pois… Estive a ler umas coisas sobre os que deputados do psd e do pp pensam do “alvaro” e eles de facto nao sao nada benevolentes…
Pois é, Fadinha! Cumprir horas de trabalho não é garantia de produtividade, apenas de disponibilidade para atender o empregador. Eu já fiz um curso seqüencial de Gestão de Pessoas, e lhe convido a pesquisar sobre a História da Administração, sobre o Taylorismo em especial. O sistema de “tempo e movimento” do Taylorismo desgastou muitos trabalhadores, gerou muitos conflitos em fábricas, e certamente vão querer impôr um neotaylorismo nos países em crise. O que acontece, é que as pessoas deviam trabalhar naquilo que gostam, dentro de suas vocações. Se a pessoa não gosta do tipo de emprego que tem, não vai render mesmo! E outra coisa, o caminho para a produtividade é a gestão participativa. Assim, os funcionários que querem crescer profissionalmente vão ficar motivados.