Daily Archives: 2012/01/21

Sobre o desinvestimento da Jerónimo Martins (Pingo Doce) em Portugal e nos Portugueses

Boicote ao Pingo Doce !

Boicote ao Pingo Doce !

Tem-se falado muito (até por aqui) da expressão de supremo anti-patriotismo por parte dos empresários que levam os impostos que pagavam em Portugal para a Holanda, sendo destes, o caso mais recente o de Manuel dos Santos e do Pingo Doce (para apoiar o “Boicote ao Pingo Doce” clique AQUI). Mas falou-se muito menos que sendo a escassez de Capital o problema crónico de Portugal, um dos portugueses com mais Capital, precisamente Manuel dos Santos, do Pingo Doce foi um dos empresários que proporcionalmente, em 2012, mais vais investir no estrangeiro e menos em Portugal.

Com efeito, em novembro de 2011, a Jerónimo Martins (Pingo Doce) declarou que iria investir 800 milhões de euros: 400 na Colômbia, 300 na Polónia e apenas 100 milhões de euros em Portugal. Ou seja, o “nosso” (dele) Pingo Doce reserva para o “seu” (?) apenas um oitavo do investimento total.

Portugal neste momento difícil só pode sair da profunda crise em que se encontra através da racionalização das despesas do Estado (descontroladas desde os consulados Cavaco Silva), com austeridade q.b., claro, mas também com investimento. E este não pode ser público (dada a dimensão atual da divida pública), mas privado. Resulta assim chocante ver como um dos homens mais ricos de Portugal (e que enriqueceu em Portugal) levar agora esse dinheiro que ganhou connosco para a Colômbia e a Polónia sem o investir em atividades produtivas em Portugal.

Da próxima vez que pensar em comprar os seus produtos num Pingo Doce, pense que sete oitavos do dinheiro que Manuel dos Santos fizer com o lucro dessa venda vão direitos para a Colômbia e Polónia e que o dono da empresa que está a enriquecer já não paga impostos em Portugal, nem acredita no país, nem sequer em si, enquanto português e capaz de dar a volta a mais esta grave crise nacional.

Se o Pingo Doce não quer Portugal, os portugueses não querem o Pingo Doce.

Adira ao Boicote ao Pingo Doce clicando AQUI !

Categories: Economia, Portugal | 26 Comentários

Os Paradigmas da Politica Económica

Desde a crise asiática de 1997 e depois do colapso do Lehman Brothers em 2008 que se percebeu que os paradigmas económicos dos anos 90 estavam carecidos de mudança.

O primeiro paradigma a tombar foi a recomendação para que os países abrissem os seus mercados de capitais como pressuposto de boa governança económica. Hoje, essa noção subsiste, mas é consensual que a completa liberdade dos fluxos de capitais para fora e dentro de um país não pode ser conseguida sem que se implante uma arquitetura institucional adequada.

Acredita-se agora que os mercados financeiros domésticos bem regulados e desenvolvidos são uma condição essencial para que um país possa obter capitais a baixos custos e diversificar o risco dos investidores nacionais. Estas são duas das vantagens teoricamente garantidas pela abertura dos mercados financeiros.

Existem riscos na total liberdade de circulação de capitais. Desde logo, a alta volatilidade dos fluxos financeiros. Quando um país não está preparado para enfrentar esta instabilidade a abertura dos mercados de capitais cria hiperaquecimento, bolhas especulativas, sobrevalorização de ativos e reversões bruscas com fugas massivas de capital e ameaças de bancarrota.

Este reconhecimento advindo dos perigos da volatilidade inerente aos fluxos de capital e da transicao incompleta para os mercados financeiros abertos mudou outro paradigma: crê-se agora que o câmbio flutuante administrado é mais eficaz que o câmbio totalmente flutuante.

Na atualidade, a maioria dos países responderam às tendências recessivas com taxas de juro de zero (Japão) ou perto de zero. As baixas taxas de juro dos EUA contribuem para que exista uma grande liquidez global, o que impele muitas moedas mundiais para uma pressão altista. A China resiste sempre a valorizar a sua moeda dificultando assim a recuperação económica dos EUA e da Europa. Isto faz com que o ónus da valorização e do aumendo da Procura recaia sobre paises com o cambio flutuante, como o Brasil. O Brasil respondeu a esta desproporção suavizando a valorização cambial e acumulando reservas.

A flutuação administrada coloca em campo a acumulação de reservas e os controlos de capital, duas das ferramentas pos-Lehman a que se somam as politicas fiscais, monetária e politica macro-prudencial. Estas são as cinco ferramentas hoje disponíveis aos decisores económicos.

Estas são as ferramentas adotadas pelo FMI num novo paradigma económico onde os países devem ter as suas politicas fiscais contracíclicas (sempre que possivel) e uma politica monetária focada no controlo da inflação, vigiada por um Banco Central o qual deve tambem estar atento à formação de bolhas especulativas.

O paradigma atual aconselha a taxa básica de juros como a ferramenta mais adequada para se combater a inflação enquanto que a estrutura macroprudencial é a mais eficiente na gestão de bolhas especulativas. Concretamente, fala-se aqui de gestao de niveis de depósitos, regras contraciclicas de capitalização bancária e tributação sobre operações de crédito.

Contudo, mesmo quando um país criou as condições macro-económicas mais adequadas algo pode correr mal por causa da instabilidade importada sob a forma de fluxos voláteis de capital. Uma solução passa pela acumulação de reservas, via fluxos de entrada, por forma a suavizar a valorização cambial, quer na fase de fluxos de saída, evitando a escassez de divisas através da entrada em cena de controles de capital.

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