“o documento assinado entre o governo e a Intel definiu que a distribuição de 500 mil computadores pelos alunos do 1o ciclo teria exclusivamente tecnologia Intel. Apesar de existirem outros produtores mundiais especializados em computadores para crianças (como a Negroponte)”
(…)
“ficou ainda acordado que Portugal teria que envolver-se no “lançamento e promoção da Iniciativa Magalhães a nível nacional e internacional bem como no planeamento, desenvolvimento e lançamento de iniciativas de cooperação com outros países.”
Ou seja, o Governo assumiu como obrigação sua publicitar noutros países o produto comercial da Intel que seria fabricado pela JP Sá Couto. Como de facto, acabou por verificar-se com a Venezuela, a Líbia ou Angola, por exemplo. Só Hugo Chavez comprou um milhão de computadores à JP Sá Couto.”
(…)
“A Microsoft diz no seu site que “a disponibilização de licenças do seu mais recente software foi feita a custo reduzido.”
No que respeita ao combate à infoexclusão, o programa Magalhães é um rotundo sucesso, merecidamente citado enquanto tal por várias entidades internacionais. Mas esse sucesso não nos deve fazer esquecer os seus erros e lacunas, especialmente porque este programa não pode estar esgotado e tem que ser renovado todos os anos, entregando novos computadores às crianças que todos os anos ingressam no sistema de ensino.
São vários os pontos de falha que encontramos no “Magalhães”:
1. A Intel é a detentora em mais de 90% do mercado mundial de processadores. O “Magalhães” é uma variante do seu computador “Classmate” que a multinacional norte-americana tem procurado vender em todo o mundo, esmagando sem grande pudor os seus adversários, como o “One Laptop per Children” (OLPC) da fundação não-lucrativa de Negroponte, um prestigiado académico, que optou por equipar os seus computadores não com o processador da Intel, mas com um processador da sua derradeira rival sobrevivente, a AMD. O OLPC corre também uma variante do Linux, enquanto que os clones Classmate, como o “nosso” Magalhães são concebidos para correr os sistemas operativos de outra multinacional norte-americana: a Microsoft.
2. Como sucede tantas outras vezes: o Governo português não soube estar à altura da dignidade do Estado que representa nas negociações com a Intel e a Microsoft. O Primeiro-Ministro José Sócrates não hesitou em fazer-se fotografar assinando protocolos com executivos de segundo plano das empresas americanas, quando para preservar a dignidade do Estado que representa devia ter deixado essa oportunidade para um diretor geral ou – no máximo – para um Secretário de Estado. E sobretudo, a consagração contratual que seriam os nossos impostos a financiar as campanhas de marketing de duas muito prósperas multinacionais norte-americanas é – no mínimo – patética! Não basta já pagar a estas cada componente e licença vendida, mas também temos que pagar e fazer marketing a seu favor no estrangeiro! É como se quando comprássemos um apartamento, ficássemos também com a obrigação contratual de vender os outros que o construtor ainda não conseguiu vender! Ridículo!
3. Por fim, não compreendo porque todos os Magalhães têm que ter cópias do sistema operativo comercial da Microsoft e do seu Office. É certo que a distro de Linux portuguesa também está presente em cada Magalhães, mas porque pagar mais (mais do que um cêntimo) por um sistema operativo comercial quando um gratuito já está instalado nele? Que interesses servis se cumprem aqui? Compreende-se bem o interesse da Microsoft em arregimentar futuros utilizadores dos seus sistemas inseguros, instáveis e caros (veja o preço da nova versão do Vista: Windows 7), mas é difícil perceber porque é que os Magalhães não foram entregues com o Caixa Mágica e a versão gratuita de Office conhecida como “OpenOffice”. Difícil, a menos que se quisesse mesmo dar dinheiro do Estado à Multinacional americana a todo o custo…
Fonte:
Luís Rosa
Jornal Sol, de 18 de dezembro de 2009






















